Buddy: “A voz que se ouviu a seguir não foi a do Tenente, mas a minha. Estava com a boca seca, enquanto até minhas cuecas pareciam encharcadas de suor. Eu disse que estava me lixando para o que Sra Fedder tinha falado sobre o Seymour. Ou mesmo para o que qualquer profissional diletante ou amador idiota tivesse a falar sobre o assunto. Disse que, desde que o Seymour tinha dez anos de idade, todos os doutores bem pensantes e todos os lavadores de privadas públicas com pretensões intelectuais do país vinham dando palpites sobre ele. Podia ter sido diferente se Seymour fosse apenas um carinha metido com um QI nas nuvens. Disse que ele jamais havia sido exibicionista. Disse que nenhum filho-da-mãe, nenhum dos críticos e colunistas de quarta categoria que queriam se passar por condescendentes jamais entendeu o que ele realmente era. Um poeta, pelo o amor de Deus. É isso mesmo, um poeta! Embora nunca tenha escrito uma linha de poesia, ele transmitia poesia por todos os poros.”
Seymour : “Se ou quando eu começar a ir a um analista, eu espero ardentemente que ele tenha o bom senso de convidar um dermatologista para participar das consultas. Um especialista em mãos. Tenho cicatrizes nas minhas mãos por haver tocado em certas pessoas. Uma vez, no parque, quando Franny era ainda levada pra lá em um carrinho de bebê, passei a mão, por tempo demais, na penugem que cobria a cabeça dela. A outra vez aconteceu no cinema da rua 77, quando eu assistia com Zooey a um filme de terror. Ele tinha uns seis ou sete anos, e se enfiou embaixo da poltrona para não ver uma cena assustadora. Pus a mão na cabeça dele. Certas cabeças, certas cores e texturas de cabelo humano deixam marcas permanentes em mim. Outras coisas, também. A Charlotte uma vez fugiu de mim, quando saíamos do estúdio, e eu agarrei seu vestido para fazê-la parar, para mantê-la perto de mim. Um vestido amarelo de algodão que eu adorava por ser longo demais para ela. Eu ainda tenho uma marca amarelo-limão na palma da minha mão direita. Oh, Deus, se há algum termo clínico que me sirva, eu sou um tipo de paranóico ao contrário. Suspeito que as pessoas estejam sempre conspirando para me fazer feliz.”
J. D. Salinger
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
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