domingo, 31 de maio de 2009

¬¬

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa

terça-feira, 26 de maio de 2009

sábado, 23 de maio de 2009

Mas é do Chico!



Tradução (Marina Garruti):

Ah, tu verás, tu verás,
tudo recomeçará, tu verás, tu verás,
o amor é feito para isso, tu verás, tu verás,
Não bancarei mais o tolo, aprendi a minha lição,
sobre a extremidade dos teus dedos, tu verás, tu verás,
você a terá, tua casa com telhas azuis,
das encruzilhadas de hortensias, as palmas cheias de céus,
dos invernos crepitantes, perto do gato angora,
e adormecerei, tu verás, tu verás
o dever realizado, deitado contra você,
Com meus sótões, as minhas adegas e os meus tetos,
todos os sonhos do mundo.

Ah, tu verás, tu verás,
Tudo recomeçarás, tu verás, tu verás,
a vida é feita para isso, tu verás, tu verás,
Tu verás a minha caneta emplumada de sol,
nevar sobre o papel o arcanjo dos sonhos,
Eu me despertarei, tu verás, tu verás,
todo raiado de sol, ah, o belo escravo!
E irei acordar a felicidade nos seus panos,
Eu vou furar o seu sono, tu verás, tu verás,
Eu vou furar o colchão, tu verás, tu verás,
inventando-te o amor no coração dos meus braços,
até à manhã do mundo

Ah, tu verás, tu verás,
tudo recomeçará, tu verás, tu verás,
o diabo foi feito para isso, tu verás, tu verás,
Eu vou bancar o canalha, tu verás, tu verás,
Eu beberei como um buraco, e o que viver morrerá,
Tu me recolherás nos teus olhos orvalho,
e eu te insultarei em vidro quebrado,
Eu serei loucamente furioso, tu verás, tu verás,
contra você, contra todos, e sobretudo contra mim,
a porta do meu coração bramirá, saltará,
pois o pó e o raio, é feito para que os ratos
invadam o mundo.

Ah, tu verás, tu verás,
todo recomeçarás, tu verás, tu verás,
Mozart foi feito para isso, tu verás, entenderás,
tu verás a nossa criança, brilhando de suor,
adormecer-se gentilmente à sombra das suas irmãs,
e retornar para nós cintilando de vigor,
verás o meu amigo nos ossos dos meus braços,
dividindo a plena felicidade de senti-se ajudado
Tu me verás, querida, acender as luzes
e verás todos os que nos creem falecidos
retomar respiração e vida na carne da minha voz
até o fim dos mundos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O milagre

Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia
e do lábio do amigo brotam palavras de eterno encanto

Dias mágicos
em que os burgueses espiam,
através das vidraças dos escritórios,
a graça gratuita das nuvens.


Mário Quintana

OBA!!!

domingo, 10 de maio de 2009

Você é...

­
Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra.

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.

Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.


Martha Medeiros

Jon Foreman

Everybody Hates Chris

"you make me sing"